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Preso, isolado e sem mandato: o retrato melancólico de Jair Bolsonaro, três anos após a derrota para Lula

23/11/2025

Desde que, inacreditavelmente, perdeu a reeleição para Lula, seu maior adversário político, em 2022, Jair Bolsonaro coleciona momentos dramáticos em sua trajetória. Eleito presidente do Brasil em 2018, o capitão da reserva foi o 38º presidente do país e levou consigo, ao poder, uma enxurrada de estreantes na política que só foram eleitos porque estavam vinculados ao seu partido, à época, o PSL, representado na urna pelo número 17.

Quatro anos depois, e enfrentando os problemas típicos de um governo desafiado a administrar um país do tamanho do Brasil, Bolsonaro não conseguiu se reeleger, fato inédito para um presidente da República desde a redemocratização. Era um sinal claro de que o bolsonarismo havia falhado em algum ponto, já que a diferença para seu oponente foi pequena: 2,1 milhões de votos, num universo de 156 milhões de eleitores em 2022.

O erro que custou a reeleição de Jair estava nos detalhes.

Longe do que pregava Olavo de Carvalho, figura idolatrada pela direita brasileira, que dizia que o mandato, por si só, não significava muito e que era preciso “tomar as bases”, Bolsonaro governou sem essa lição de casa básica.

Cercado por figuras inexpressivas ou com pouca capacidade de mapear crises, o então presidente confiou sua popularidade às caravanas e motociatas que mobilizavam milhares de pessoas pelo país e acabou esquecendo um detalhe importante: naquelas viagens que impressionavam os espectadores, ele “só falava para convertido”. Quem o acompanhava já era seu eleitor. Bolsonaro esqueceu de cuidar do entorno, de ampliar sua influência e usou o deboche como ferramenta constante de comunicação. Qualquer pessoa que lhe fizesse uma pergunta incômoda era tratada como inimiga do rei e, automaticamente, virava alvo de seus apoiadores, especialmente na internet.

O modelo adotado por Jair Bolsonaro em seu mandato parecia inaugurar uma nova forma de exercer o mais alto cargo do país: relação ruim com a imprensa, deboche com quem discordava, dificuldade de diálogo com quem pensasse diferente.

A conta chegou e lhe custou a reeleição. Olhando em retrospecto, é possível avaliar que, a partir daquele momento, o poder de Jair Bolsonaro começou a sofrer pequenos desgastes. A especialista em comunicação política, Gisele Metter, lembrou recentemente em seu perfil no Instagram que “nem todo mundo que está no poder tem poder”. É uma forma sucinta de relembrar aos desavisados de que mandato e poder são coisas diferentes.

Seguindo conselhos de pessoas próximas, Bolsonaro tomou uma série de decisões equivocadas, como quando viajou aos Estados Unidos após a derrota nas urnas, viu Lula subir a rampa do Palácio do Planalto e virou réu por envolvimento em atos que sugeriam a tentativa de se manter no poder, mesmo após perder a eleição, fatos que evidenciam a falta de habilidade política de seus aliados.

A forma como seus filhos passaram a se dedicar mais ao capital político do pai do que ao próprio pai revelou a um país inteiro que a figura mítica de Jair Bolsonaro sempre esteve cercada por pessoas incapazes de protegê-lo quando necessário.

A violação da tornozeleira

A cena melancólica e, por que não dizer, triste, que viralizou neste sábado, quando uma policial pergunta a Bolsonaro “Que horas o senhor começou a fazer isso, Seu Jair?”, em referência à tentativa de retirar a tornozeleira, expôs um ex-presidente que pareceu estar abandonado pela família e sem poder.

Naquele momento, ao se dirigir a ele como “Seu Jair”, simbolicamente, ele foi despido de toda pompa do cargo que um dia ocupou, sendo tratado com dignidade, porém sem bajulação. Ele era “só” um certo Jair. É que, como já disse o poeta, “aqui embaixo as leis são diferentes”.

O surto

A tentativa de remover a tornozeleira eletrônica que usa desde agosto ocorreu às vésperas de uma semana decisiva, que antecede o anúncio do início do cumprimento da pena a que foi submetido pelo STF. Sem a presença da esposa e dos filhos, Seu Jair cometeu um ato que o levou imediatamente à prisão. Entre as tantas perguntas que surgem nessa hora, uma delas é: como podem tê-lo deixado a sós, estando com a saúde tão debilitada, como se noticia? Por que Michelle, Carlos, Flávio, Eduardo e Jair Renan não estavam fazendo companhia ao marido e ao pai? Ficou a impressão de que cada um está mais preocupado com sua pré-campanha do que com o próprio pai ou marido.

Seu Jair disse, neste domingo, durante audiência de custódia, que estava acompanhado da filha mais nova, que é menor de idade, de seu irmão mais velho e de um assessor e que nenhum deles teria visto sua tentativa de remover a tornozeleira.

Ele também alegou ter tido uma espécie de surto, decorrente da combinação de medicamentos, o que teria levado-o a cometer tal ato.

Efeito político

Ainda não é possível prever como vai se comportar o bolsonarismo com Bolsonaro isolado e, atualmente preso, a partir desse novo episódio da série “Brasil”.

Se antes havia esperança de que o ex-presidente conseguisse reverter a inelegibilidade para concorrer às eleições do ano que vem, agora esse cenário parece cada vez mais distante. Assim como acontece com Lula, Bolsonaro é uma figura difícil de ser “substituída”. Mas isso é assunto para a próxima coluna de domingo.

Neste fim de semana chuvoso no Sul de Santa Catarina, sobram perguntas e faltam respostas, mas uma coisa é fato: é cada vez mais evidente que, quem não tem mandato, nem o vento bate nas costas.