Coluna da Maga: a ameaça de João; o bate-boca eleitoral; o presente de Lula a Jorginho

29/06/2026

A ameaça de João Rodrigues de retirar a candidatura foi um dos assuntos da semana que passou. O pré-candidato a governador disse que, se o governo do estado ‘tivesse o projeto da viamar, ele deixaria de ser candidato’.

Jorginho Mello, governador, pré-candidato à reeleição e também bom de microfone, aproveitou o ‘truco’ de João para dobrar a aposta e transformou o desafio em palanque durante o Summit Cidades.

Recordando

Na quarta-feira, em Itajaí, Jorginho lançou o edital de licitação da obra paralela à BR-101, na região Norte. O ato não foge ao calendário eleitoral, estando dentro do prazo permitido para esse tipo de ação. A partir do próximo sábado, dia 4 de julho, esse tipo de evento não pode mais ocorrer; mas, antes disso, nenhuma limitação eleitoral.

À noite, João veio a público dizer que o Estado não tinha o projeto. No outro dia, o governador surgiu com 4 cadernos contendo o “anteprojeto”, um material técnico vasto sobre a viabilidade da obra que servirá, posteriormente, para embasar o desenvolvimento do projeto executivo de fato. No dia seguinte, o ex-prefeito de Chapecó voltou às redes e disparou: “eu tinha razão. Não tinha projeto”.

No entanto, o bate-boca eleitoral entre os dois pré-candidatos serviu apenas para evidenciar o clima que deve prevalecer durante a campanha. No funil da tomada de decisão do eleitor, na hora de definir seu voto, questões técnicas como essa passam longe.

Apesar de o assunto ter dominado as conversas políticas, ele não serviu para furar a bolha. Continua sendo um tema que interessa mais para quem é candidato do que para os catarinenses. Projeto ou anteprojeto, quem contratou ou quem pagou por ele, não são pautas que comovem os futuros eleitores.

Para as pessoas, no dia a dia, talvez tenha prevalecido a impressão de que João cobrou Jorginho, que, por sua vez, respondeu e entregou ‘os projetos’. Na política, a ‘verdade’, muitas vezes, é uma narrativa bem contada.

A ameaça de João

Outro ponto que certamente já foi bem medido e pesado pelas duas campanhas é como o eleitor interpretou a ameaça de João Rodrigues de retirar a candidatura. Mas, se vale um conselho, deixo o meu aqui: na política, ou na vida, não se deve “ameaçar” aquilo que não se está disposto a fazer.

O presente de Lula a Jorginho

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, veio a Santa Catarina na última sexta-feira para uma agenda intensamente política concentrada em Itajaí. Pela manhã, participou da cerimônia de batismo e lançamento ao mar da Fragata “Cunha Moreira” no estaleiro TKMS Estaleiro Brasil Sul, evento que integra o Programa Fragatas Classe Tamandaré, focado na defesa nacional com previsão de investimentos bilionários via Novo PAC.

Depois, Lula visitou o Estaleiro Detroit Brasil para vistoriar as obras de embarcações de apoio marítimo offshore para a Petrobras, ação do Programa Mar Aberto, que prevê a construção de 42 embarcações no estado, com investimento estimado em R$ 12 bilhões e projeção de gerar mais de 5 mil empregos diretos na região. No mesmo dia, o governo federal oficializou a entrega do segundo lote das obras de duplicação da BR-470/SC, no trecho entre Ilhota e Gaspar, um investimento de mais de R$ 528 milhões voltado a melhorar o escoamento logístico do estado.

Mas nada disso teve a mesma repercussão de algumas declarações desastrosas de Lula durante o evento, como quando recorreu ao líder do partido nazista alemão, Adolf Hitler, para falar sobre ‘o racismo no estado’.

Entre umas e outras, também alfinetou o governador catarinense, disse que “nem sabia o nome dele” e afirmou que o governador “recusou” R$ 24 bilhões do governo federal. As declarações, ao pé da letra, foram duras:

“Tá chegando o momento da onça beber água. Vocês não podem permitir que prevaleça em Santa Catarina o racismo. Não pode permitir que aqui em Santa Catarina a pessoa seja tomada da síndrome de grandeza, porque esse estado é muito rico, não é pobre. A gente é o estado brasileiro e todo mundo tem que ser tratado igual, todo mundo. Não tem o cara que, porque é branco é melhor do que o que é negro, o cara que é nordestino é pior do que o do sul do país, a gente não aceita’, disse.

Lula citou Adolf Hitler em seu discurso

‘Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou, só a gente não pode permitir essa ideia da hegemonia branca, sobre o restante do país. Por isso eu estou aqui orgulhosamente dizendo sou pernambucano, sou nordestino, mas duvido que algum governador catarinense fez por Santa Catarina o que eu fiz como presidente. Compara. Compara tudo que eu fiz aqui com o atual governador. Pega tudo que eu fiz aqui. Na educação, na saúde, no transporte, na inclusão social. Pega e compare com o que ele fez. Pode comparar. Compare tudo que eu fiz aqui neste estado com o que ele fez. Você vai perceber que a única coisa que ele fez foi tagarelar’, disse o presidente.

As falas geraram forte reação, mas também foram um “presente” para Jorginho Mello que, de pronto, respondeu às declarações de Lula nas redes sociais e no campo jurídico. No Instagram, o governador catarinense fez duas publicações. Uma na sexta-feira, dando sua versão sobre os R$ 24 bilhões:

‘Nunca nos ofereceram esse investimento. O que o ministro está falando é o projeto de concessão para pedagear as nossas estradas estaduais. Esses mais de 3 mil quilômetros que reformamos no programa Estrada Boa, eles queriam que uma empresa arrumasse pra depois pedagear. Esse é o tal dos 24 bilhões. Não brinca com nós, né? Aqui ninguém é tolo. Mas eu arrumei, sem precisar botar mais imposto no lombo do Catarinense’, disse.

Já no domingo, o governador escreveu: ‘O estado acusado de racista pelo presidente Lula foi o mais acolhedor nos últimos anos’, ilustrando a declaração com dados do Censo que mostram Santa Catarina como o estado que mais recebeu migrantes proporcionalmente no período recente. Além disso, no sábado, Jorginho determinou o ingresso de uma representação junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Lula, em razão da fala considerada preconceituosa contra os catarinenses.

Mas tudo isso virou o pano de fundo perfeito para o start na campanha eleitoral. É ali, nesse embate direto, que Lula e Jorginho querem “jogar”: Direita x Esquerda; Lula x Bolsonaro. É terreno conhecido para ambos; um gramado bom de jogar.

E foi isso que aconteceu. Lula e Jorginho seguram a narrativa em seus campos ideológicos, impedindo que outras forças cresçam. Para Jorginho, a visita de Lula e suas declarações exageradas foram um presente de fim de semana. Inclua-se nessa conversa o pré-candidato a governador do “time do Lula”, como faz questão de ressaltar Gelson Merísio. O empresário é o nome da esquerda no estado e trabalha com o objetivo de levar a eleição para o segundo turno, fortalecendo o palanque do presidente em SC.

Lula e Gelson Merísio, sorridentes, em Itajaí, na última sexta-feira. Foto: divulgação.

Traduzindo

O “trelelê” de sexta-feira foi bom para Lula manter vivo seu discurso para a militância catarinense, foi bom para Jorginho entrar no embate para “defender” o estado e foi excelente para mudar o assunto sobre a Viamar. Tanto é que, embora tenha subido ao palco dias antes com os cadernos do anteprojeto, não há nenhuma publicação nas redes sociais do governador esticando o bate-boca ou se dirigindo diretamente a João Rodrigues. Vale lembrar que a vinda de Lula, embora eminentemente política, não afronta a legislação eleitoral, que permite agendas com entregas oficiais até o dia 4 de julho.

Promessa vazia no Morro dos Cavalos

Mesmo assim, nem a véspera do início das restrições de campanha foi suficiente para comover o governo federal a apresentar um indício de solução real para o trecho da BR-101 no Morro dos Cavalos, em Palhoça. O Ministro dos Transportes, George Santoro, chegou a tocar no assunto, mas não detalhou prazos e jogou a promessa para um eventual próximo mandato de Lula:

A gente está pra resolver um problema histórico aqui em Santa Catarina. O governo passado fez a concessão que foi ganha pela Motiva e não incluiu a solução do Morro dos Cavalos. Depois de muito tempo de muitas discussões, a gente conseguiu viabilizar essa solução. São três bilhões de investimento. Santa Catarina é um estado que necessita de investimentos em infraestrutura e logística para a gente poder dar conta todos os dias. O senhor ouviu aqui no caminho um engarrafamento aqui na BR-101, a gente espera no próximo mandato do senhor a gente estar com isso resolvido’, disse.

A fala soou como mais uma promessa vazia. Em janeiro deste ano, o ministro Renan Filho chegou a fazer um evento bastante prestigiado, num palco montado às margens da rodovia, para anunciar “a solução definitiva para o Morro dos Cavalos”, como constava no próprio convite do encontro. Dois meses depois, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) emitiu nota apontando a falta de consenso técnico final sobre o reequilíbrio do contrato, engavetando mais uma vez a discussão prática sobre o tema.

Nos meses seguintes, o assunto continuou pautando encontros entre a bancada parlamentar catarinense e representantes do governo, porém, não há até o momento nenhuma solução encaminhada nem prazos estabelecidos. Apenas a promessa. Pela complexidade da obra, que envolve a necessidade de túneis transpondo o morro, não é exagero dizer que os catarinenses não devem ver uma solução definitiva pelos próximos dez anos.

Há pouco mais de três meses para o dia da eleição, é nesse climinha de pós-guerra que os catarinenses iniciam a semana. Aproveita e me conta lá no @magastopassoli o que você tem achado da disputa por aqui.

A coluna volta amanhã (ou a qualquer momento, se precisar 😀 ).