Fazer perguntas é uma das partes mais divertidas da vida de uma jornalista. Quanto mais perguntas fazemos, maiores são as chances de chegarmos mais perto da realidade que existe por trás de uma resposta. É como tirar o pó de um móvel ou limpar uma janela de vidro: é preciso insistir, repetir o movimento, até que aquilo que estava escondido comece a aparecer. No jornalismo, as perguntas têm justamente essa função: tirar a poeira do cenário, limpar o vidro e permitir que enxerguemos melhor aquilo que estamos tentando compreender.
Acompanho atentamente o cenário político de Santa Catarina desde 2018. Essa parte da história, você já conhece. Mas foi em 2022 que entrou em cena, como candidato e, depois, como governador, o então senador Jorginho Mello, filiado ao PL, antigo PR, do qual já fazia parte.
Em sua primeira entrevista após tomar posse como governador, na sede do Centro Administrativo, local onde atendeu a imprensa, Jorginho disse que ‘tinha orgulho de ser político e que fazia política 24 horas por dia, sete dias por semana’. A declaração do recém-eleito era uma espécie de senha para quem quisesse observar o cenário político de Santa Catarina nos anos seguintes.
Naquela eleição, Jorginho não teve o apoio direto de Jair Bolsonaro, candidato à reeleição para presidente. Jair não quis tomar partido no estado, pois, em 2022, a urna também trazia como candidato a governador Esperidião Amin (PP), de quem o presidente sempre deixou claro ser amigo. Para não arrumar problema nem com um, nem com outro, o líder bolsonarista optou por ficar neutro naquela campanha. Quando falo sobre isso, sempre surge quem diga que Bolsonaro apoiou Jorginho. Me resta dizer que Jair não fez nenhum gesto, nem sequer parecido com o que fez Flávio. O cenário foi completamente diferente, justamente pelo motivo que aponto no texto.
Essa parte da história política recente do nosso estado sempre me despertou curiosidade, pois, nos anos seguintes, sem mandato, já que não se reelegeu presidente, Jair Bolsonaro visitou Santa Catarina diversas vezes e, em algumas delas, chegou a ficar hospedado na Casa da Agronômica, residência oficial do governador. Em todas as vindas, Jair foi ciceroneado por Jorginho.
Além de visitá-lo, já governador, Jair Bolsonaro também esteve em Chapecó em algumas oportunidades, ressaltando sua amizade com o então prefeito, João Rodrigues. Numa das visitas, JB chegou a sugerir que João disputasse o Senado, na futura chapa de Jorginho à reeleição. Recentemente, durante entrevista ao podcast Sabatina Apartidária, perguntei a João Rodrigues sobre esse assunto. Ele disse que, naquele momento, era muito cedo para definir uma pré-candidatura ao Senado, que preferiu continuar à frente da prefeitura e decidir sobre isso ‘mais pra frente’.
A boa relação de João com Jair e de Jair com Jorginho, como citado acima, voltou a me despertar curiosidade quando o filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro, foi anunciado como o nome do PL para disputar a Presidência.
Se o ex-presidente preferiu a neutralidade na disputa de 2022, em Santa Catarina, para evitar desgastes, como seria a postura do filho dele, quatro anos depois?
E foi em busca dessa resposta que saí de casa num sábado chuvoso em Florianópolis, no dia 9 de maio deste ano, rumo ao evento do PL, no Stage Music Park.
Minha intenção era decifrar qual seria a postura de Flávio Bolsonaro sobre a política do estado, visto que o contexto era similar ao da eleição anterior. Em 22, o amigo de Jair que disputava com Jorginho era Esperidião. Em 2026, o amigo de Jair que disputava com Jorginho era João Rodrigues.
Naquele dia, durante a coletiva com a cúpula do PL-SC e com Flávio, após seis colegas jornalistas fazerem seus questionamentos, lá estava eu, diante do filho do ex-presidente, ansiosa por saber se a pergunta que havia preparado poderia arrancar do candidato uma resposta imprevisível.
Contextualizei a ele, naquele momento, que a direita de Santa Catarina havia tido momentos de turbulência, mas depois encontrou seu rumo. Nesse cenário, disse que tínhamos, então, as candidaturas de Jorginho e de João Rodrigues (PSD) e finalizei perguntando:
Maga: Afinal, quantos candidatos a direita tem em Santa Catarina?
Flávio: Um. Jorginho Mello. O candidato da direita em Santa Catarina é o Jorginho Mello. Uma pessoa que eu conheço, foi senador comigo por quatro anos, tem feito um mandato excelente.
Se Flávio tivesse adotado a linha de conduta de seu pai, talvez tivesse dito algo como ‘não sendo o PT, todos são bem-vindos’, abrindo margem para que a disputa entre Jorginho e João Rodrigues ficasse ainda mais acirrada.
A resposta foi completamente diferente da de Jair, quatro anos antes, e apontava, com seis meses de antecedência, que o PL, tanto nacional quanto local, não mediria esforços para sinalizar ao eleitor que a direita estava representada na urna pelo número 22.
À época, João ficou bastante incomodado com a resposta de Flávio (e com a pergunta também), o que pode ser compreendido como uma reação normal, já que, naquele momento, todos queriam beliscar votos à direita. O andar da carruagem acalmou os ânimos e ninguém mais falou sobre o que havia sido dito naquele fatídico 9 de maio.
A pré-campanha e a campanha seguiram seu curso, os nervos voltaram a ficar à flor da pele e a disputa pelo governo de Santa Catarina se concentrou em Jorginho, João e Merísio. Cada um tinha um representante nacional disputando a Presidência: Jorginho com Flávio, Merísio com Lula e João com Caiado.
Ocorre que, em nível nacional, como bem mostrou o resultado da eleição, o Brasil literalmente se dividiu entre PL e PT, partidos que o eleitor compreende como direita e esquerda. O candidato do PSD, Ronaldo Caiado, fez 2% da votação. O eleitor não identificou em Caiado nem uma alternativa à polarização, nem um nome que representasse a direita.
O mesmo ocorreu em Santa Catarina. O eleitor deu a Flávio Bolsonaro, no estado, 66,6% dos votos, enquanto a Lula deu 25%. A diferença entre eles foi de 1,8 milhão de votos em SC.
O que ocorreu na disputa presidencial se repetiu na disputa pelo governo do estado catarinense. O eleitor entendeu que ‘direita’ e ‘22’ eram sinônimos. A leitura feita pela campanha de Jorginho, com base em pesquisas, ajudou a ajustar a estratégia.
Antes mesmo da realização do 1º turno, faltando três dias para a eleição, João Rodrigues divulgou um vídeo e declarou seu voto e apoio a Flávio Bolsonaro. Justificou sua decisão dizendo que sempre foi de direita.
Ao declarar apoio a Flávio, talvez João não tenha tido essa intenção, mas, mesmo sem querer, ele ajudou a endossar a resposta à polêmica pergunta de maio: quantos candidatos a direita tinha em Santa Catarina?
Só tinha um.
