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‘A eleição mostrou que atenção e estridência viraram um dos ativos mais valiosos da política’, diz Maurício Locks

07/10/2026

Maga Stopassoli — como você analisa a eleição em Santa Catarina?

Locks: A olho nu, foi uma eleição parecida com o que aconteceu em boa parte do país: uma onda azul. Mas, conhecendo um pouco mais Santa Catarina, acho que aqui existiam outras conjunturas que ajudam a explicar o tamanho do resultado.
O governador Jorginho Mello e seu núcleo político se prepararam para esta eleição. É um núcleo que envolve os filhos Bruno e Filipe Mello, o irmão Juca Mello e a secretária de Educação, Luciane Ceretta. Houve organização política, preparação e construção de um projeto ao longo do governo.
Por isso, não vejo o resultado apenas como consequência de um fator nacional ou de marketing. Jorginho terminou com 68,98% dos votos válidos. É um resultado muito expressivo, que mostra que havia uma construção política estadual consolidada.

O que faltou para João Rodrigues e Gelson Merisio?

Acho que Merisio performou dentro do cenário que estava colocado para ele. João sofreu lá atrás, quando não enxergou corretamente o ambiente político que estava se formando.
Ele insistiu muito na tese de que o eleitor estava cansado da radicalização. O problema é que eu não via dados que sustentassem essa leitura. Pelo contrário. O volume de atenção que nomes como Júlia Zanatta e Ana Campagnolo conseguiam concentrar já era um sinal muito forte do comportamento de uma parcela importante do eleitorado catarinense.
Em dezembro, escrevi um artigo publicado no jornal O Globo sobre Hugo Motta e a dificuldade do candidato que não se posiciona. Parafraseando a deputada Júlia Zanatta: não há espaço para o ‘extremo centro’.
Sobre João, ele tem uma gestão para apresentar e uma capacidade muito grande de comunicação. Com tempo, pode reorganizar e estruturar melhor um projeto futuro. Agora, é preciso entender o que as urnas disseram.
João teve um resultado abaixo do esperado, mas ainda assim melhor do que o de Gean Loureiro em 2022, que tinha o apoio das máquinas de Florianópolis, São José, Criciúma, Lages e Chapecó.

Mas, nacionalmente, Lula não se preparou?

Eu não vi, nas campanhas presidenciais, um trabalho que, sozinho, explique o resultado. Na minha leitura, os fatores externos pesaram muito e foram explorados politicamente.
A questão do Judiciário estava muito presente no debate nacional e ganhou ainda mais força na reta final, com episódios envolvendo o STF e a discussão em torno do debate da Globo.
Então, mais do que uma eleição produzida exclusivamente pelo planejamento das campanhas, tivemos um ambiente político que potencializou temas que já mobilizavam parte importante do eleitorado.

Você esteve à frente da estratégia da campanha de Esperidião Amin ao Senado. O que faltou para o Careca?

Eu tive a sorte de fazer parte de um projeto que me deixou muito feliz. Quando recebi o convite de Marcello Natale para dividir com ele esse desafio, aceitei com muita alegria. Natale já tinha tirado as redes do Amin do chão e dado uma identidade à campanha. Eu cheguei na parte final da estruturação e acho que fomos felizes.
Nós conseguimos pautar temas da eleição e construir uma identidade muito clara para Amin. Ele terminou com 1.233.034 votos.
O resultado também confirma algo que os números vinham mostrando: fez falta não estar no núcleo da candidatura do governador Jorginho Mello. Em uma eleição com uma verticalização muito forte do voto, isso teve peso.
Mesmo assim, foi uma campanha da qual saio muito feliz. Trabalhar com Amin também foi uma aula sobre Santa Catarina. Era impressionante prepará-lo para os debates, porque ele conhecia os temas, as regiões, a história e os personagens do estado.

Quero te ouvir sobre os projetos em outros estados, principalmente sobre Celina Leão

Estou retornando para Brasília. Por menos de 200 votos, não vencemos no primeiro turno, então agora é intensificar o trabalho pela reeleição de Celina Leão (governadora e candidata à reeleição pelo PP). Também passei pelo Pará, onde acompanhei parte da pré-campanha do Dr. Daniel, que acabou eleito governador.
Em Minas, Mateus Simões fez a escolha de sair do Novo e ir para o PSD e acabou percorrendo um caminho político mais difícil. A eleição mineira também deixou algumas mensagens importantes sobre a reorganização da direita e da esquerda no estado. E, na linguagem popular, fica o ensinamento: muro só serve para gato e caco de vidro.

Você também coordenou a campanha de Romeu Zema até abril. Ele foi muito mal nas urnas. Onde a campanha ruiu?

Acho que a estética e a identidade da campanha ficaram bacanas, mas houve erros de rota.
Um deles foi o enfrentamento com Flávio Bolsonaro. A história recente mostra como é difícil entrar em uma disputa direta com a família Bolsonaro e atravessá-la sem consequências dentro desse eleitorado.
Outro fator foi a ida para São Paulo, que acabou deixando Minas politicamente descoberta em um momento importante. O resultado final foi uma perda de domínio eleitoral no estado, que precisa ser analisada com bastante cuidado.

Qual foi, para você, o ponto alto dessa eleição em Santa Catarina?

Em maio, escrevi um artigo falando da possibilidade de Júlia Zanatta, Carol de Toni e Ana Campagnolo terminarem entre os grandes destaques eleitorais do estado. Não considero isso um grande acerto meu. Os números já mostravam esse movimento.
Acompanho Júlia desde o começo da trajetória. Na primeira semana do mandato de deputada federal, ela já estava no Jornal Nacional. Agora, entrou nesta eleição com o nome sendo cogitado até para vice de Flávio Bolsonaro.
Ela entendeu uma coisa importante da política atual: a disputa pela atenção.
Quando você consegue reter atenção, fica mais fácil ser adotado por um grupo e, inversamente, ser rejeitado por outro. Mas você não é esquecido. Júlia terminou como a deputada federal mais votada do estado, com 560.223 votos, enquanto Ana Campagnolo foi a estadual mais votada, com 387.523.
Isso diz bastante sobre a política catarinense hoje.

E o que esperar desse novo ciclo até 2028?

Acho que começa uma reorganização importante.
O PSD deve passar por uma discussão de comando. Se eu tivesse que apostar em um nome com capacidade de assumir protagonismo partidário, olharia para Napoleão Bernardes.
No MDB, existia um desenho bastante claro em torno de Valdir Cobalchini, mas talvez seja o momento de olhar também para Rafael Pezenti, que saiu desta eleição com 125.010 votos para deputado federal.
O PL talvez esteja chegando ao auge de seu tamanho em Santa Catarina. E um partido muito grande naturalmente começa a conviver com grupos, projetos e disputas internas. Esse talvez seja o próximo desafio do governador.
Adriano Silva também terá decisões importantes sobre o próprio futuro. Topázio também teve um resultado político muito importante em Florianópolis.
Então, para mim, 2028 não será uma eleição isolada. Esses movimentos já começam a desenhar o tabuleiro de 2030.