‘Eu nunca venci uma eleição no 1º turno, mas nunca perdi no 2º’. A declaração do presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em seu discurso após a confirmação da vitória, deu o tom do clima de virada em cima de seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

Lula derrubou a estatística de que, historicamente, nenhum candidato a presidente que tenha terminado o 1º turno em segundo conseguiu vencer a eleição no Brasil. Ele saiu vitorioso da disputa com 51,79% contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Os índices correspondem a 64.252.232 e 58.826.041 votos, respectivamente.
Depois de ficar em desvantagem na corrida eleitoral, Lula recomeçou a campanha para o 2º turno, com uma mudança de postura perceptível. No primeiro tempo da eleição, sua campanha parecia perdida no tempo, sem conexão com o eleitor petista/lulista e/ou de esquerda.
O medo real de perder a eleição fez com que a campanha fosse para o tudo ou nada. André Janones capitaneou o movimento digital com a criação de canais de conteúdo no WhatsApp, que depois viraram mobilizações nas ruas do país. Era o começo da esperança de virar a eleição.
Um grande adversário
Flávio Bolsonaro não foi, em momento algum, um adversário fácil de ser vencido. Ao contrário. Talvez a avaliação de que lhe faltava experiência em concorrer a cargos para o Executivo tenha sido equivocada. A força do candidato foi vista no 1º turno. Flávio terminou a disputa em 1º e era o favorito absoluto à eleição.
O excesso de confiança, próprio de quem está numericamente em condições mais favoráveis, possivelmente também colaborou para que a campanha de Flávio tivesse alguns tropeços. Comemorar cedo demais foi um desses. A dificuldade em ‘desdizer’ declarações de pessoas próximas, como foi o caso da quase ministra da Economia de seu governo, Daniela Marques, sobre o Bolsa Família, foi outro.
Quem observou atentamente viu que alguma coisa estava acontecendo nas ruas. Era o reencontro da esquerda brasileira com suas origens, depois de uns bons anos afastada.
Enquanto Lula se mobilizava pedindo que jovens e idosos não deixassem de votar, buscando, naturalmente, a diminuição das abstenções, Flávio tinha em seu desfavor outro detalhe: candidatos a cargos proporcionais, como deputados estaduais e federais, não estavam mais nas urnas, já haviam sido eleitos no 1º turno e isso pode ter desmobilizado alguns eleitores a votar. São possibilidades. A vitória e a derrota não são feitas de um único fator.
Discurso de posse
Em seu primeiro discurso após ser eleito, Lula deu sinais de que entendeu o recado (o susto) no 1º turno e de que pretende fazer mudanças em seu estilo de governar. É o que se espera de quem vence a eleição. A população brasileira não deve ficar submetida a antigas mágoas do presidente reeleito. É hora de seguir em frente. O próprio Lula deve saber que seu próximo governo não será fácil, no entanto, é preciso que ele refaça pontes e melhore sua relação com alguns estados.
Flávio Bolsonaro não reconhece a derrota
Flávio Bolsonaro falou com a imprensa logo após a confirmação do resultado deste domingo e disse não reconhecer a derrota. Ele questionou a decisão (equivocada) do STF de estender a eleição no país até as 19h. Apesar disso, um levantamento do G1, com base nos dados divulgados pelo TSE, apontou que 35.521 votos foram registrados entre 17h e 19h, número insuficiente para garantir a vitória de Flávio.
Nove dedos
Nos bastidores, circula uma leitura sobre o desempenho de Flávio no debate da Globo, na última sexta-feira. No programa, ele cita os nove dedos de Lula, em tom jocoso. Para algumas pessoas ouvidas pela coluna, a fala de Flávio não foi bem vista. O fato de verem um jovem se dirigindo daquela forma a uma pessoa de mais idade incomodou alguns segmentos, é a leitura do recorte do debate. ‘Brasileiro não gosta de ver um idoso sendo tratado daquela forma. Seria diferente que aquele diálogo tivesse sido entre Lula e o próprio Jair Boslonaro, eles tem quase a mesma idade’, me disse uma fonte, sobre o assunto.
Jorginho consolida papel importante na direita do Sul
Embora o resultado da eleição presidencial não tenha sido o que o governador catarinense gostaria, vale colocar no radar político a atuação de Jorginho Mello em prol da eleição de Flávio. Desde o 1º turno, Jorginho abriu as portas do estado para o candidato do PL, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e nome da direita na disputa nacional. Entre eventos do PL de Santa Catarina e agendas isoladas, Jorginho foi braço direito e conselheiro de Flávio em alguns momentos. Após o 1º turno, foi dele a iniciativa de se reunir com os governadores eleitos do PL no Paraná e no Rio Grande do Sul para reforçar o apoio a Flávio e não deixar a mobilização esfriar. Experiente que é, o governador reeleito sabia que era preciso manter o eleitor empolgado para ir votar. Além de atos nas três capitais dos estados do Sul, Jorginho participou de mobilizações pró-Flávio no Rio de Janeiro e do debate da Globo, às vésperas da eleição, a convite de Flávio. Jorginho cumpriu seu papel enquanto líder político e governador reeleito em primeiro turno.
Primeiro sinal a ser observado
O dia seguinte sempre chega, em qualquer eleição. E, no dia seguinte, a próxima eleição já começa a ser discutida. Na manhã desta segunda-feira, o deputado federal Nikolas Ferreira, que também ocupou papel importante na mobilização da campanha de Flávio, publicou um vídeo em que disse, entre outras coisas, que as pessoas que discordam do resultado da eleição não devem ir para as ruas. Ele usou trechos bíblicos para justificar que é preciso saber sofrer e aprender com os erros. Ao pedir que as pessoas não ocupem as ruas, Nikolas mira diretamente no enfraquecimento do bolsonarismo propriamente dito. Aqui, vale lembrar, que a relação de Nikolas com Carlos Bolsonaro, então candidato ao Senado, foi conturbada. Esse fato quase fez com que Nikolas não aderisse à campanha presidencial do irmão de Flávio. Para representantes da juventude liberal brasileira, a derrota de um nome que representa o bolsonarismo é fator determinante para que novos nomes possam surgir.
As lições
O excesso de confiança costuma aumentar as chances de erro. Ter confiança de que algo vai dar certo é fundamental, mas há uma linha fina que separa isso do que pode ser entendido como arrogância. Lula aprendeu isso no 1º turno. Flávio, no 2º.
Ironias
Entre as ironias da eleição, separei duas para dividir com você. A primeira é o fato de Flávio Bolsonaro ter votado a favor do fim da escala de trabalho 6×1 há menos de duas semanas da eleição, pauta sobre a qual ele era contrário. Ele acabou sendo pressionado pelo apelo popular com relação à aprovação da proposta. A segunda é o vídeo em que ele diz à deputada estadual catarinense Ana Campagnolo que ou ela gravasse um vídeo em apoio ao seu irmão, Carlos, durante a campanha ao Senado, ou então parasse de usar sua imagem (a de Flávio) em suas redes sociais. Ana nunca mais postou nada com a foto de Flávio, embora tenha feito algumas publicações anti-Lula nos últimos dias. Ela se elegeu. Ele, não teve a mesma sorte.
Curiosidade
Até o fechamento dessa coluna, a ex-primeira-Dama, Michelle Bolsonaro, não havia feito nenhuma publicação em suas redes sociais mencionando a derrota do enteado. As únicas manifestações dela no domingo são sobre a eleição de Celina Leão (PP), governadora do DF, de quem é amiga.
E a direita?
Seguirá mais forte e mais organizada a partir de 2026. Jair Bolsonaro ainda é o ‘rosto’ da direita brasileira. Mas as articulações, agora, terão outro tom. Nomes que vinham sendo cotados antes da escolha de Flávio, como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, ressurgem no cenário aberto das eleições de 2030. Agora, todos os interessados pela vaga de presidente do Brasil, daqui quatro anos, iniciam a corrida em pé de igualdade.
Nota: essa é uma coluna que reflete sobre os fatos ocorridos neste domingo, 25 de outubro. Ainda assim, não a pretensão de ser uma cartilha de ‘certo x errado’. A eleição deste ano foi tensa e muito disputada. Certamente não é possível resumir em poucas linhas tudo que colaborou para o resultado de ontem. São apenas divagações de uma jornalista curiosa com o processo eleitoral, que às vezes inverte a lógica e pega um tanto de gente de surpresa.
Quer opina sobre essa coluna? Te espero em @magastopassoli no instagram.