Além disso, as recentes disputas internas na Direita, a exemplo da rusga entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, são erros que a urna não perdoa

Desde que o Brasil foi dominado pela polarização no campo político, ainda no fim do segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), a política do país nunca mais foi a mesma. E isso, meus caros, dá margem para muitas interpretações.
Há uma recorrente discussão do quanto isso é bom ou prejudicial para o povo. Vimos Dilma cair, Bolsonaro surgir e virar “mito” para seus eleitores e, com isso, inaugurar uma nova época da política nacional.
Se antes, Direita e Esquerda até que viviam, de certa forma, harmoniosamente, após o surgimento do fenômeno “Jair Bolsonaro”, nasceu também o termo que batizou esse novo momento político: o Bolsonarismo. É uma mistura de conservadorismo e nacionalismo, além de clara oposição a qualquer ideia progressista. Tudo isso, claro, vinculado e com os devidos créditos dados à figura que deu nome ao conceito: Jair Bolsonaro.
O então deputado federal pelo Rio de Janeiro ganhou popularidade, admiradores, adoradores e fãs. Muitos fãs. Esses ativos são o sonho de qualquer um que queira ser candidato, pois tudo isso vira voto. E Bolsonaro fez isso. Levou para urna, em 2018, quase 58 milhões de votos e deu início a um governo de Direita, depois de uma sequência de mandatos de esquerda que começou lá em 2002, com a eleição de Luís Inácio Lula da Silva (PT).
A Onda Bolsonaro e o reflexo na política de SC
No ano em que Bolsonaro foi eleito, novas figuras surgiram na política. Muitas, eleitas no que se convencionou chamar de “Onda”. A Onda Bolsonaro. Só que, mais difícil do que fazer uma enxurrada de votos, é manter esses votos para a eleição seguinte. E, no caso de Bolsonaro, você sabe, ele não conseguiu.
E não, não vamos voltar ao assunto das urnas fraudadas porque isso já é assunto superado. Não que eu seja necessariamente contrária a qualquer novo mecanismo de conferência de voto. Me refiro aqui à ideia de que ele possa ter perdido por conta das urnas. Nem bolsonarista acredita mais nisso. Só funciona para agitar as redes sociais.
No mundo dos adultos, todos sabem que Bolsonaro perdeu a eleição por erro estratégico. Ele tinha obrigação de ter vencido em 2022, mas acabou sendo o primeiro presidente a não se reeleger desde a redemocratização do país.
Ao perder a eleição, Bolsonaro ficou, digamos, ao vento. E ao falar em vento, lembro de uma célebre frase usada por um amigo para se referir a esses casos. Ele diz: “quem não tem mandato, nem o vento bate nas costas”.
Não é bem o caso de Jair, já que ele conseguiu cativar uma fatia interessante de apoiadores para todas as horas. Em especial, aqueles que foram eleitos, puxados pelo seu discurso.
Fiz esse preâmbulo digno de discurso de político para dizer que, em Santa Catarina, que ostenta com orgulho o status de “estado mais bolsonarista do Brasil”, não foi diferente. Por aqui, a Onda também chacoalhou a política estadual e tirou de cena figuras importantes. Não só isso. Deu espaço para novatos. E para novatas.
É o caso da deputada estadual Ana Campagnolo (PL), natural de Itajaí, Norte do estado. Ela nunca havia sido eleita antes e, em sua primeira eleição, em 2018, contabilizou quase 35 mil votos.
Já em 2022, naquela eleição que Jair Bolsonaro tinha obrigação moral com seu eleitor de ter vencido, Ana se reelegeu com a maior votação da história do estado. Colocou na urna quase inacreditáveis 196 mil votos. Eu disse “quase”, porque a votação recorde não foi um lance de sorte ou uma coincidência.
Discípula de Olavo de Carvalho
Campagnolo é “discípula” de Olavo de Carvalho, figura mítica para a direita brasileira. Entre outros ensinamentos, Olavo pregava que um partido só alcança e sustenta o governo se já tiver poder social, cultural e organizacional acumulado — o que exige militância, disciplina e organização prévia. Se você chegou até essa parte do texto, já entendeu que Ana Campagnolo fez o que Jair (e outros) não fizeram.
Ela colocou em prática o que pregava Olavo e viu sua base eleitoral (que depois virou voto na urna) crescer exponencialmente. Foi por isso, também, que Ana ajustou seu perfil de atuação, saindo de um mandato barulhento, porém menos eficaz, para um mandato estratégico e presente em praticamente todas as cidades do estado.
Ana existe sem depender do bolsonarismo
A parlamentar fez isso sem precisar usar o verde e amarelo (cores que se tornaram referencias para a Direita) nas publicações em suas redes sociais. É um recado: Ana existe, politicamente, com ou sem o bolsonarismo.
E antes que você se revire na cadeira, achando que é um exagero dizer isso, vou além e dobro a aposta. Ana existe sem depender do bolsonarismo. Se o fenômeno político que dividiu o Brasil deixasse de existir nesse exato instante, uma parcela importante de políticos “de direita” que você conhece desapareceria.
Porque, Maga? Porque não têm trabalho de base. A deputada, inclusive, vem dando sinais de como planeja as ações estratégicas de seu mandato. Recentemente, numa publicação no Instagram, disse:
“Se eu acreditasse que minhas habilidades seriam melhor aproveitadas contribuindo com uma ‘solução imediata’ partindo de Brasília, certamente estaria lá. No meu entendimento, as mudanças devem partir da base; não do topo. Essa é a solução que estou apontando há anos e apenas reforcei mais uma vez aos colegas: invistam mais tempo na formação de lideranças comunitárias, na eleição de vereadores e prefeitos, na instrução de apoiadores para que se qualifiquem e ocupem espaços estratégicos dentro da máquina.”
Usei o exemplo da deputada catarinense para dizer que estamos presenciando um desdobramento dentro da própria direita, que já começou a entender: sem Bolsonaro presidente, agora, cada um precisa correr atrás do seu. Claro que isso não significa dar as costas, abandonar os pares. Mas não dá para ficar igual cachorro correndo atrás do rabo.
E foi nesse ponto que Bolsonaro falhou. Talvez envolvido pelo sentimento de poder, de quem chegou à presidência, e cercado de pessoas com nenhuma habilidade política, o criador do sentimento do bolsonarismo não soube o que fazer com o poder. E falhou na lição mais importante do que ele próprio acreditava: formar time, ocupar espaços.
Nisso tudo, há um ponto em Bolsonaro e Lula se assemelham umbilicalmente. Eles não conseguem (ou não querem) criar nada para além de suas próprias figuras. Prova disso é a eleição do ano que vem. Com Bolsonaro inelegível e Lula com idade avançada, direita e esquerda saboreiam o mesmo problema, que é a falta de nomes interessantes para a disputa.
Quem se organizou e fez a lição de casa vai para a disputa sem depender da sorte. Quem só deitou no colo do bolsonarismo e esperou sentado pode levar um susto quando a eleição chegar.
Agora voltemos à Ana Campagnolo
Nos recentes textos que tem publicado, Ana faz questão de pontuar aonde a direita bolsonarista errou. Por exemplo, quando diz:
“Algumas pessoas questionaram numa publicação anterior: o que eu estou fazendo ‘para salvar o Brasil’ da escalada autoritária? Provavelmente não leram o que escrevi, pois vieram me acusar justamente num post onde eu indicava o caminho que os conservadores deveriam seguir: subir menos hashtags e agir mais — dentro do que as suas atribuições e possibilidades proporcionam.”
Em tradução livre, a deputada basicamente diz aos seus pares: “menos barulho na internet, mais ação”. Ela também cita Jair Bolsonaro e diz que ele teve boa intenção, mas que só isso não basta.
Além disso, um trecho de uma publicação da parlamentar na última semana chamou atenção e parece um prenúncio do que ela mira, politicamente falando.
Ana usa o termo “Time Campagnolo” para dimensionar que está dedicando seu mandato para montar o que ela chamou de soldados leais, como pregava seu ídolo, morto em 2022. Ao que tudo indica, esse será a última eleição da parlamentar como deputada estadual, que mira outros espaços na política.
Veja:
“Por 6 anos, até meados deste ano, proibi meu gabinete de conversar com jornalista ou conceder entrevistas. Suspendi até transmissão ao vivo das palestras nas minhas viagens incansáveis. ‘Venha, o encontro é presencial e pessoal.’ Contratamos gente que gosta de gente. Montamos clubes de leitura em cidades estratégicas, montamos um grupo de soldados leais distribuídos por região, elegemos vereadores do meu time (hoje temos 50 vereadores e 50 suplentes no Time Campagnolo).”
A deputada é só um exemplo para dizer que as recentes disputas internas na Direita, a exemplo da rusga entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, é um erro que a urna não perdoa. A direita existe sem o bolsonarismo.
Mas o Bolsonarismo não existe sozinho, sem a direita. É preciso tomar cuidado para não idolatrar demais e esquecer de montar time. Essa história já foi contada em 2022 e o final, bem, o final você já conhece.