Opinião: “E o povo, deputado?”

12/03/2021

“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim.”

Se você também leu a frase acima cantarolando, arrisco dizer que temos a mesma idade ou, talvez só tenhamos boa memória televisiva.

Trata-se de um versinho famoso, eternizado na abertura do programa humorístico do SBT, A Praça é Nossa, no ar desde quando a tv não tinha cor.

O programa de humor, para quem não conhece, é todo feito com esquetes, que são pequenos quadros encenados por atores e convidados. Cada esquete, um assunto diferente.

Entre bordões, escrachos e algum humor questionável, um personagem da Praça é atemporal. 

O deputado João Plenário.

Interpretado (magistralmente) pelo ator Saulo Laranjeira, o personagem João Plenário é composto estética e textualmente por ingredientes bastante comum no nosso dia-a-dia.

Terno mal cortado, gravata estampada por imagens de notas de dólares, sapatos nada canônicos, óculos perdido no rosto, cabelo desgrenhado e, CLARO, uma mala (não falei de quê).

João Plenário mistura bordões e um humor característico de quem teve um dia exaustivo de trabalho em alguma repartição pública e ainda precisa atender a “imprensa”. 

Chega na praça, cumprimenta o apresentador Carlos Alberto de Nóbrega e logo chegam os jornalistas.

Ele os recebe bem mas o papo desanda quando interrogado sobre algum suposto desvio de dinheiro.

João Plenário desfia uma série de justificativas, sempre em tom de injustiçado.

Solta palavrões, xinga o público e vai embora levando a mala.

Antes de terminar a conversa, toda semana, o apresentador pergunta:

– Mas e o povo, deputado?

E ele responde:

– “eu quero é que o povo se lasque todo.”

João Plenário é um personagem de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

Enquanto isso, no dia em que completamos 1 ano de pandemia declarada pela OMS, o Brasil tornou-se o epicentro do coronavírus no mundo.

Reuniões e mais reuniões entre quem “decide” e o resultado é: outra reunião para marcar outra reunião. 

Fazendo uma comparação entre dois assuntos, lembrei que no mundo da política diz-se que para que um impeachment ocorra é preciso que haja “clima” para isso. Ou seja, existe um timing exato onde o assunto ganha a força necessária para seguir ou perder “força”. 

Na condução das decisões de contenção do vírus também é assim. 

Estamos há três semanas batendo recordes diários de mortes em todo país e também aqui em Santa Catarina. Nunca morreu tanta gente. Estamos também há três semanas com um lockdowm para inglês ver, em Santa Catarina, que vale somente para os fins de semana. (Houve até quem chamasse de semi-lockdowm. O brasileiro, você sabe, ele olha pro limite e kkkk)

É uma pandemia de decretos. 

Porém o “clima” para ações mais enérgicas, passou. Perdemos o timing.

Agora, é empurrar com a barriga até que o assunto perca força. Porque é assim que estamos vendo a maior crise sanitária da nossa geração, ser conduzida.

Se o João Plenário aparecesse na praça, a gente iria perguntar:

“E o povo, deputado?”

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